lunes, 21 de febrero de 2011

Geração "à espera do comboio na paragem do autocarro" *

Eu comecei por não achar piada aos Deolinda, até que me gravaram o primeiro CD do grupo e mudei de ideias: letras bem humoradas, que induzem, que sugerem, que criticam e música agradável q.b..

Não vejo razão para endeusar nem para crucificar a banda, à pala do tema "Que parva que eu sou", que quanto a mim critica tanto a passividade dos jovens como o sistema que os adormeceu, pelo que para usarem a música como hino queixa, estes jovens têm que enfiar a carapuça primeiro...

Seja como for, dá-lhes jeito (aos Deolinda) toda esta histeria...

* verso de Sérgio Godinho, numa música, cujo nome não me lembro agora e estou com preguiça de googlar... Mas também poderia ser outro verso do Godinho: geração "descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo"...

Adenda: A música chama-se "Lá em baixo" e merece citação completa, porque quem de nós nunca "andou desencontrado como à espera do comboio na paragem do autocarro"?

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma


E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta

vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
e uma cara desconhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé duma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida
És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

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